Lixo

Uma cidade que acumula lixo

Na Zona Norte do Recife, moradores apelam por uma intervenção pública

 

por Damares Romão | qua, 08/01/2012 - 02:53

Jorge de Oliveira, 52 anos, comerciante. Nascido e criado no bairro do Arruda, Zona Norte do Recife, ele passa as tardes sentado em uma cadeira de plástico, em frente a própria casa, às margens da Avenida Professor dos Anjos, admirando uma paisagem nada agradável: o Canal do Arruda cheio de lixo. Saneamento básico não se restringe somente ao abastecimento de água e à rede coletora de esgotos, mas inclui também a limpeza pública e a coleta de lixo. A situação de seu Jorge (foto) é apontada pelo recifense, no levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau, como um dos principais problemas enfrentados na cidade, com 6% de reclamação.

A Região Político Administrativa 2 (RPA 2), na qual o bairro do Arruda está inserido, a cobrança é ainda maior, sendo um problema apontado por 8% dos mais de 200 mil moradores da aréa. O Recife produz cerca de 2 mil toneladas de resíduo sólido por dia, segundo dados da Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização (Emlurb).

De acordo com o comerciante, a coleta realizada pela Prefeitura, na rua onde ele mora, acontece todos os dias, sendo exigido apenas que o lixo seja colocado em sacos plásticos. Mas o problema é a falta de conscientização dos próprios moradores, que acabam desrespeitando as regras. “As pessoas jogam todo tipo de lixo dentro do canal, desde garrafas a animais mortos.”, afirmou. Ao redor do canal, montanhas de lixo se misturam a móveis quebrados, entulhos de obras e a pouca área verde que sobra em meio a tanta poluição. 

Na Rua Pedro de Melo Pedrosa, ainda no bairro do Arruda, o problema também é alvo de reclamação de grande parte dos moradores. Lá, segundo eles, a coleta só é feita duas vezes por semana e de forma incompleta. “Os garis entram aqui na rua, mas não recolhem todo o lixo. E não adianta reclamar porque a Prefeitura não liga pra isso. O lixo que sobra os cachorros fazem a maior bagunça”, alegou dona Maria de Lordes, 61 anos.

No local funciona a Creche Municipal Vila Imperial, onde 90 crianças – de zero a três anos – são atendidas diariamente. Em frente à instituição passa um córrego sujo, cheio de garrafas, sacos plásticos e muito lixo. De acordo com Régia Ferreira, coordenadora pedagógica da creche, no período de chuvas fortes o córrego transborda e a água invade a creche, impedindo que o espaço receba os alunos. O problema também se reflete na saúde de cerca de 70% das crianças, que sofrem com doenças de pele, resfriado, alergia e diarreia. “Muitas dessas crianças moram em áreas onde a situação do lixo é agravante, e por isso elas acabam sofrendo com doenças provenientes da falta de saneamento”.

 Devido à incidência de doenças, a creche em parceria com o posto de saúde do bairro oferece vacinação para todas as crianças da instituição. No período da noite, profissionais de saúde realizam teste de detecção da filariose - doença transmitida por um mosquito e que pode provocar deformações em membros.

Durante o tempo em que a reportagem do LeiaJá esteve no bairro do Arruda, os próprios moradores ao ver a equipe de reportagem logo se aproximaram  para fazer denúncias sobre o lixo na comunidade. A aposentada Josefa Gomes (foto), 75, mora no residencial Vila Imperial I, entregue pela Prefeitura do Recife (PCR) em 2010, e reclama da desorganização do prédio. “O edifício foi construído no meio do terreno. Por trás tem um espaço onde o mato está muito alto e as pessoas jogam lixo. Lá tem cobra, escorpião, e isso é muito perigoso e ninguem faz nada para mudar essa realidade”.

 Já a manicure Flávia Nunes (foto), 30, reclama da falta de coleta por parte da PCR. “Temos um reservatório para colocar o lixo, mas rapidamente enche e nós temos que pagar alguém para recolher e limpar”. O porteiro José Roberto Ferreira, 50, afirma que o lixo acumulado favorece a proliferação do mosquito da dengue e que ele, a mulher e a filha já tiveram a doença. Mesmo com tantos problemas os moradores não deixam de sonhar com uma cidade mais limpa e bonita. “Eu espero um dia poder sentar na frente da minha casa e admirar uma paisagem muito diferente. Quero ver o verde das árvores, as borboletas voando e os passarinhos cantando”, concluiu seu Jorge.

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