Recife

A saúde que o povo rejeita

Falta de médicos, filas, e omissão do poder do público é o cenário na RPA1 na Zona Norte da cidade

 

por Thabata Alves | qui, 08/02/2012 - 04:38

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A saúde é um direito básico de toda a população, garantido pela constituição brasileira.  Mas na prática, precisar de atendimento médico, exames e medicamentos nas Unidades de Saúde da Família não é tão simples quanto deveria. Filas, falta de estrutura e de profissionais são alguns problemas enfrentados pelo recifense.  O retrato desse caos está registrado na insastifação com o sistema, apontado na pesquisa Agenda Recife do Instituto Maurício de Nassau. O tema aparece em quarto lugar no ranking dos problemas que o recifense detecta na cidade.

A dona-de-casa Rosa Maria Gomes da Paixão, 48 anos, que mora no bairro Passarinho, Zona Norte da cidade, sente na pele as consequências do descaso com a saúde na Unidade de Saúde da Família (USF) de Passarinho Alto, a única em funcionamento na localidade. “A médica Ana Catarina está de licença, parece que fez uma cirurgia plástica. Desde o mês de junho estou com o resultado do hemograma e mamografia que fiz, mas só em setembro ela volta de licença e vai ver meus exames”, lamenta a dona-de-casa.

De acordo com os moradores do bairro, nesse período, pacientes só contam com atendimento no bairro de Dois Unidos, onde fica a Unidade de Saúde da Família mais próxima. “Ainda não precisei ir para outro bairro para ser atendida, mas tenho medo que a médica do nosso posto não volte a tempo e os meus exames percam a validade”, completou Rosa Maria com exames em mãos, que têm data de realização de 25/5/2012. Sem ter colocado um profissional substituto, a Prefeitura apenas esclarece por meio de sua assessoria que a médica de licença voltará ao trabalho nesta quinta-feira (2) e, que, até então, o atendimento vinha sendo feito na Policlínica Clementino Fraga.

O bairro de Passarinho está situado na Região Política Administrativa 3 (RPA3), Zona Norte do Recife, identificada pela Pesquisa como a mais insastifeita com o serviço de saúde pública. Cleonice Queiroz de Oliveira, 50 anos, que mora há 18 anos no bairro se queixa, ainda, da confusão no atendimento, ja que os pacientes do Posto de Passarinho Baixo, em reforma, correm para Passarinho Alto . Sem saber especificar nomes, ela ressalta simplesmente que a médica de Passarinho Baixo tem usado o posto de Passarinho Alto indevidamente. “Ela diz que não pode nos atender, mas usa o nosso posto para atender os pacientes lá de baixo”, afirma. A Prefeitura diz que a médica não é obrigada a atender pacientes dos dois postos, mas sim aqueles onde ela atua originalmente, "podendo prestar suporte em casos pontuais como transcrições de receitas controladas". 

Cleonice denuncia, ainda, que a liberação de medicamentos está sendo feita para a população de Olinda. Ou seja, de outro município. “Teve uma mulher que fez o pré-natal dela aqui no nosso posto, enquanto isso as famílias que são atendidas aqui, precisam ir para a fila do posto cada vez mais cedo para conseguir uma marcação porque vem gente de fora pra cá. É necessário entrar na fila às 4 horas, pois se chegar às 6 horas da manhã fica sem vaga”, ressalta Cleonice.

A omissão do poder público parece tão impactante, que, até as chaves da Unidade de Atendimento de Passarinho, por um bom tempo ficou sob a responsabilidade de um simples morador da área. Dona Ivete dos Santos Silva, 60, moradora de uma casa ao lado do posto de saúde há quase 20 anos, conta que passou seis meses com a responsabilidade de guardar em sua casa as chaves da USF. “As meninas que trabalhavam aí (na USF) chegavam tarde, depois das 8 da manhã e já tinham pessoas esperando para serem atendidas no Posto, por isso decidiram deixar as chaves comigo e eu entregava a servente que chegava mais cedo. Depois pediram as chaves de volta e a servente passou a ser responsável por elas”, explicou dona Ivete.

José Bonifácio - Na mesma RPA3, na Unidade de Saúde da Família do Alto José Bonifácio, os problemas são ainda mais graves. Assim que nossa equipe de reportagem chegou ao local e procurou os responsáveis pelo posto, logo se aglomeraram os usuários para fazerem queixas da situação. “Estamos sem atendimento médico há mais de um ano. São quatro enfermeiras que nos atendem e elas não podem fazer encaminhamento médico. Estou esperando por uma consulta há meses e só agora conseguiram fazer uma marcação de consulta para mim em setembro”, protestou a dona-de-casa Rubenita Prazeres Carmo Lima, 66 anos.

Dona Maria Cícera Maris, 60, diz que é diabética e tem pressão alta, mas conta que quando passa mal tem que recorrer a ajuda de uma vizinha para aferir a pressão. “Nem sempre tem alguém no posto para nos atender em casos de emergência. Meus pais morreram o ano passado e não consegui que fossem atendidos aqui”, disse.

 

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