Raio

O Recife que sofre com a educação

Salários baixos, saúde comprometida, professores se ressentem e alunos também sofrem

 

por Alexandra Gappo | qui, 08/02/2012 - 04:00

Foto: Hivor Danierbe/LeiaJàImagens

Apesar da educação, inusitadamente, não ter sido um tema citado entre as preocupações do recifense pelos entrevistados da Pesquisa Agenda Recife, do Instituto Maurício de Nassau, o LeiaJà o incluiu nessa reportagem especial, considerando que não dá para falar de saúde pública sem falar de educação, pela relevancia e ligação de ambos os temas. 

O raio "X" traçado pela nossa reportagem idenficou problemas na educação que vão além das dificuldades de infraestrutura, mas toca na saúde física, literalmente falando, dos seus protagonistas - que são os professores. E que reflete diretamente na sala de aula.

De acordo com o Sindicato Municipal dos Profissionais de Ensino da Rede Oficial do Recife (Simpere), dos 5,5 mil docentes concursados, 500 estão afastados das salas de aulas por doenças relacionadas ao trabalho como problemas nas cordas vocais, dores na coluna e depressão.

Desse total, cerca de 40% sofrem de doenças de caráter emocional. Segundo a diretora de assuntos educacionais do Simpere, Riso Germano, esse percentual alto se deve a falta de estrutura financeira e física encontrada pelos professores. “A situação das escolas é precária. Você encontra poucas unidades em boas condições. E o plano de carreira existente não é estimulante para um docente”, afirma a professora.

Com carga horária de 145 horas, o professor em início de carreira e com apenas o segundo grau completo tem salário equivalente a R$ 7,76 a hora/aula, cerca de R$ 1.125,00 mensais. O docente ainda tem a opção de acumular mais 125 horas, o que resultaria em 270 horas de trabalho.  Mas para isso, o profissional deve fazer a solicitação junto a Secretaria de Educação. Segundo informações do Simpere, o piso salarial foi aplicado na proporcionalidade para menos para um professor em início de carreira. “Recife não está tão distante da luta nacional quando o assunto é o piso rebaixado”, diz a diretora do sindicato.

Estrutura - A estrutura das escolas também é um assunto que está sempre em pauta quando falamos de ensino público. A Secretaria de Educação, Esporte e Lazer (Seel) do Recife possui hoje uma rede com 221 escolas do ensino fundamental I e II. O investimento em obras, como a construção de três novas sedes e a reformas de nove escolas municipais do Recife, resultou em um investimento de R$ 45 milhões, segundo informações da Seel. Ainda de acordo com a secretaria, desde de 2009, até o último mês de junho de 2012, a Secretaria investiu R$1.758.938.164,05 na educação.

Mas ainda há situações difíceis como a da Escola Deputado Fernando Sampaio, no bairro de Nova Descoberta. A instituição funciona no Alto Antonio Félix, tendo uma sede e dois anexos improvisados. A unidade atende as comunidades dos arredores de Nova Descoberta, como o Alto do Cruzeiro e Alto Olho D’água. A professora Verônica Freitas, acompanha a turma de alunos de cinco anos, no anexo I, uma pequena casa que abriga até 67 alunos apenas no horário da manhã. 

Ela afirma que a escola tem o apoio dos funcionários que se adaptam a situação e tentam tornar o ambiente cada vez melhor para os pequenos do ensino infantil. “Já tivemos casos de professores que chegaram aqui e desistiram da vaga para essa unidade. Estamos em uma comunidade considerada violenta, o acesso à escola é um pouco complicado e a estrutura também assusta um pouco”, conta a mestre em ensino de ciências.

A docente diz ainda que em épocas de chuva a situação fica mais difícil. “Enfrentamos goteiras e a escadaria que fica aqui na frente da escola vira uma cachoeira”, diz. Além, disso, a “escola” ainda não possui uma área de recreação adequada, sem um atrativo para as crianças.

A grande demanda de alunos e a falta de outra unidade nas regiões mais próximas fez com que a escola absorvesse uma quantidade grande de alunos e se dividisse em três. Mesmo com todas essas dificuldades, a professora Verônica Freitas afirma que já pensou em deixar a escola, mas ainda não o fez. “Não falta oportunidade em outros lugares, mas a gente se apega a comunidade, que participa ativamente, e principalmente às crianças, que não queremos deixar nessa situação”, afirma.

Professores que enfrentam problemas como esses contam que resistem pelo amor a profissão. “Eu achei que isso não existia mais, contudo vejo aqui que existe. Além do mais, a nossa secretaria dá oportunidades para crescermos dentro da rede”, explica Verônica. O recifense tem o dever e o direito de cobrar uma maior preocupação dos órgãos responsáveis pela educação e fazer com que quadros como esses diminuam. “Recife trata a educação como uma empresa privada, isso torna as coisas mais difíceis”, avalia a docente.

Em meio às dificuldades constatadas pela reportagem do LeiaJà, escolas municipais como a Jader de Figueiredo, localizada no bairro do Engenho do Meio, tornam-se referência que o remédio, quando se quer achar, é possível de ser encontrado. A unidade, passou por uma reforma em 2011 e agora, bem estruturada, atende 180 crianças de até a alfabetização.

Com salas climatizadas, além de uma sala de informática bem equipada, a escola se tornou referência nas áreas dos Torrões e Roda de Fogo. A gestora Sandra Synara Carneiro, mostra a “nova” unidade orgulhosa. Ela explica que as crianças são auxiliadas por 18 professores, além de estagiários, psicóloga e profissionais qualificados para acompanhar alunos especiais. No entanto, ressalta que a escola ainda não é suficiente para concentrar toda a demanda da região. “Nossa escola é pequena, porém acolhedora, e damos o melhor para nossos alunos”, diz Sandra.

A situação privilegiada da Escola Jader Figueiredo incentiva os professores e gestores a continuarem lutando por uma educação melhor. “Gerir uma escola não é fácil, mas não podemos desistir”, desabafa a diretora.

Embed
Views:2222

Para comentar é necessário efetuar o login no fomulario abaixo.



 

Copyright. 2012. ESPECIAL LEIAJÁ. Todos os direitos reservados.